TLL – Talent Lunda Leste
Savana e rio do Leste de Angola ao pôr do sol

Revista cultural · Talent Lunda Leste

NOSSO LESTE

Memória e cultura das Lundas e do Moxico

37 matérias + história completa de 4 regiões · Lunda Norte · Lunda Sul · Moxico · Moxico Leste

Matérias

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Especial · 4 regiões

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Acesso livre

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As colecções do diamang.com organizadas, com ligação directa a cada galeria.

Quem somos

O criador da plataforma

Anilson Geremy Congo, criador do Nosso Leste
Anilson Geremy Congo.

Criador TLL – Talent Lunda Leste

Anilson Geremy Congo é o criador do Nosso Leste e da TLL – Talent Lunda Leste, uma plataforma dedicada à história, cultura e tradição da Lunda Norte, Lunda Sul, Moxico e Moxico Leste.

«Criei o Nosso Leste porque a nossa história não pode ficar só na memória dos mais velhos. Quero que cada jovem do Leste saiba de onde vem, conheça os seus reis, as suas máscaras e os nomes da sua terra, e sinta orgulho disso.»

Matérias

37 matérias para conhecer o Leste.

Do Reino Lunda à Diamang, dos sona às máscaras cokwe, do Zambeze ao Memorando do Luena.

37 matérias

Opinião · Acesso livre

Não há liberdade sem sacrifícios e riscos!

Textos de opinião enviados por leitores e colaboradores.

António Chibuabua Martins
António Chibuabua Martins.

Opinião Por: António Chibuabua Martins

Lutemos pela Lunda-Norte. Essa frase pode parecer dura, mas é a mais pura verdade do que vivemos. A nossa província é estuprada socialmente e economicamente.

É estuprada socialmente, basta verem para as características sociais dos seus municípios, á necessidade de tudo um pouco, até mesmo á sua cidade capital, só resta-nos lágrimas, lamentações e revolta. Até quando? Pergunto em tom alto, ao MPLA e ao seu Governo, Central e Local, mas até quando?

Economicamente debaixo do nosso subsolo há tantas riquezas que são extraídos noites e dias, mas para nós só ficam os buracos, as ravinas, rios e ar pluidos.

E para agravar a nossa frustração e revolta nos pedem para termos esperança, ficarmos calmos e calados. Numa estratégia pedagógica de nos conformarmos.

Não. Não mesmo, custe o que custar, nem que custe vidas, não vamos nos calar!

A história nos ensina que não há liberdade sem sacrifícios. A liberdade nunca caiu do céu. Ela foi sempre arrancada com coragem, com união e com resistência.✊

Nenhum povo foi livre sem lutar. Nenhum povo saiu da miséria aceitando a miséria.

No entanto, caros irmãos, compatriotas e companheiros, filhos genuínos desta terra rica e estuprada, lutemos pela Lunda-Norte.

Se nos calarmos hoje, amanhã os nossos filhos vão nos perguntar: onde vocês estavam quando a nossa terra (província) foi saqueada?

Artigo de opinião. As ideias expressas são da inteira responsabilidade do autor e não representam necessariamente a posição do Nosso Leste.

Biografias · Acesso livre

Quem governou o Leste

Todos os comissários e governadores provinciais do Moxico, Lunda Norte, Lunda Sul e Moxico Leste desde a independência, do mais antigo ao atual.

Biografias Ex-governantes e governadores

Alguns nomes aparecem mais de uma vez: «Liberdade» governou a Lunda Norte e o Moxico, Ernesto Muangala também, e «Faísca» passou pela Lunda Sul e pelo Moxico. E o atual Presidente da República, João Lourenço, foi comissário provincial do Moxico entre 1983 e 1986.

Moxico (capital: Luena)

A maior província de Angola até 2024. Até 1991, o cargo chamava-se Comissário Provincial.

  1. Armando Fernando Ndembo · 1976–1979
  2. Marques Monakapui Bassovava · 1979–1981
  3. Celestino Figueiredo Tchinhama «Faísca» · 1981–1983
  4. João Manuel Gonçalves Lourenço · 1983–1986 · hoje Presidente da República
  5. João Baptista Ndonge · 1986–1991
  6. João Ernesto dos Santos «Liberdade» · 21/10/1991 – 28/09/2017 · quase 26 anos, o mandato mais longo do Leste
  7. Gonçalves Manuel Muandumba · 2017–2022
  8. Ernesto Muangala · desde 16/09/2022 · atual

Lunda Norte (capital: Dundo)

Criada em 1978, quando a antiga Lunda foi dividida em Lunda Norte e Lunda Sul.

  1. João Ernesto dos Santos «Liberdade» · 1978–1982
  2. Silvério Gelim Paim «Kubindama» · 1982–1986
  3. Norberto Fernandes dos Santos «Kwata Kwanawa» · 1986–1992
  4. Moisés Nele · 1993–1997
  5. Manuel Francisco Gomes Maiato · 1997–2008
  6. Ernesto Muangala · 2008–2022
  7. Deolinda Ódia Paula Satula Vilarinho · 2022–2024
  8. Filomena Elizabete Chitula Miza Aires · desde 15/07/2024 · atual

Lunda Sul (capital: Saurimo)

Também criada em 1978. A lista segue o histórico oficial do governo provincial; para os anos 1992–1999, outras fontes indicam nomes diferentes.

  1. José Manuel Salukombo · 1978
  2. Celestino Figueiredo Tchinhama «Faísca» · 1978–1981
  3. José César Augusto «Kiluanji» · 1981–1983
  4. Luís Dokui Paulo de Castro · 1983–1986
  5. Rafael Sapilinha «Sambalanga» · 1986–1988
  6. Graciano Mande · 1988–1992
  7. José Manuel Salukombo · 1992–1993 · segunda vez
  8. Moisés Nele · 1993–1997
  9. Domingos Oliveira · 1998–1999
  10. Francisco Sozinho Chiuissa · 1999–2002
  11. Miji Muachissengue · 2002–2008
  12. Cândida Maria Guilherme Narciso · 2008–2017
  13. Ernesto Fernando Kiteculo · 2017–2018
  14. Daniel Félix Neto · 2018–2025 · depois ministro da Administração do Território
  15. Gildo Matias José · desde 18/11/2025 · atual

Moxico Leste (capital: Cazombo)

A província mais nova do Leste, criada na nova divisão político-administrativa de 2024.

  1. Crispiniano Vivaldino Evaristo dos Santos · desde 17/12/2024 · primeiro governador, atual

Fontes: históricos oficiais dos governos provinciais (moxico.gov.ao, lundanorte.gov.ao, lundasul.gov.ao), governo.gov.ao, ANGOP (2017, 2022, 2025), Decreto Presidencial n.º 245/25. Datas dos anos 1970 a 1990 podem variar entre fontes. Viu um erro? Fale connosco pelo WhatsApp.

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Cidades Matéria 7 · Geografia

O Leste hoje

Quatro províncias, cinco línguas e fronteira com a RDC e a Zâmbia.

ProvínciaCapitalNota
Lunda NorteDundoAntiga vila-sede da Diamang
Lunda SulSaurimo
MoxicoLuena
Moxico Leste Criada a 5 de setembro de 2024A mais nova Cazombo 9 municípios · mais de 400 mil habitantes · fronteira com RDC e Zâmbia

Línguas: Cokwe Lunda Luvale Mbunda Português

Especial · 4 regiões

História completa por região.

Do tempo dos reinos à independência e aos dias de hoje, província a província.

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Especial · 4 regiões

Lunda Norte

Capital: Dundo

  1. Até ao século XIX

    Antes da era colonial

    A actual Lunda Norte é, desde tempos antigos, terra dos povos Lunda e Cokwe. As suas aldeias espalhavam-se pelas bacias dos rios Cassai, Chicapa, Luachimo e Cuango, cujas águas davam peixe, terras férteis nas margens e caminhos naturais de ligação entre as comunidades.

    A região fazia parte da área de influência do Império Lunda do Mwata Yamvo, cuja corte, a Musumba, ficava mais a leste, no território do actual Congo. As chefaturas locais reconheciam essa autoridade e pagavam-lhe tributo, num sistema que unia povos distantes sob um mesmo poder político e ritual.

    No século XIX, os Cokwe ganharam força. Caçadores, ferreiros e comerciantes de cera, marfim e borracha, expandiram-se pelo território e tornaram-se a força dominante na região. Ainda hoje, a autoridade tradicional cokwe do Mwatxissengue goza de grande prestígio entre as populações da Lunda Norte.

    Foi nas cortes dos chefes que floresceu a arte cokwe. Máscaras, estátuas e cadeiras esculpidas exprimiam o poder, a memória e a espiritualidade de um povo, e fizeram dos Cokwe um dos grandes povos artistas de África.

  2. 1884 a 1975

    Era colonial

    A presença portuguesa na Lunda foi tardia. Só com a expedição de Henrique de Carvalho, entre 1884 e 1888, e com os tratados de fronteira assinados com o Estado Livre do Congo em 1891, o território ficou definido nos mapas coloniais.

    Tudo mudou em novembro de 1912, quando se descobriram diamantes no rio Musalala, perto do actual Dundo. A PEMA, criada em 1912, deu lugar à Diamang a 16 de outubro de 1917, com uma concessão de cerca de 52.000 km² sobre toda a Lunda.

    O Dundo nasceu como vila-sede da companhia e tornou-se "um Estado dentro do Estado", com polícia e serviços próprios. A mão de obra era recrutada à força através dos sobas, e a vida social era marcada pela segregação entre brancos, assimilados e indígenas.

    Em 1936 a Diamang criou o Museu do Dundo e, em 1937, começou a mecanização das minas. Quando a luta de libertação começou, a partir de 1961, a região continuava controlada com rigor pela companhia.

    O Cossa

    O Cossa fica no actual município do Cambulo, Lunda Norte. Foi uma das localidades onde a Companhia de Diamantes de Angola (Diamang) construiu casas para os seus trabalhadores, tal como o Dundo, Nzagi (antiga vila do Andrade), Cassanguidi, Fucauma, Luxilo, Maludi, Lucapa, Calonda e Cafunfu.

    O Cossa foi também uma das zonas das antigas fazendas agro-pecuárias da Diamang (que somavam mais de 500 mil hectares), juntamente com Maludi e Nordeste (Cambulo), Mucoloji (Chitato) e Calonda (Lucapa). Em 2020 o Governo Provincial anunciou planos para revitalizar estas antigas fazendas.

    Viveu ou ouviu histórias da época do Cossa? Partilhe pelo Cadastro.

    Fonte: Jornal de Angola, especial Lunda-Norte, 4 de Julho de 2020.

  3. 1975 até hoje

    Depois da independência

    Com a independência, a 11 de novembro de 1975, a Diamang foi nacionalizada pelos decretos 61/77 e 255/79. Em 1978, a antiga província da Lunda foi dividida em duas: Lunda Norte e Lunda Sul. A 15 de janeiro de 1981 nasceu a Endiama, a nova empresa nacional de diamantes.

    Durante a guerra civil, as zonas diamantíferas do Cuango, Cafunfo e Lucapa foram disputadas e o garimpo cresceu. O Dundo, que tinha vivido da companhia, perdeu milhares de empregos.

    Após a paz de 2002, a mineração foi relançada. A mina do Luele foi inaugurada em 2023 e, em 2024, Angola atingiu uma produção recorde de 13,9 milhões de quilates. A Endiama transferiu para o Dundo a sua fundação e a Endiama Mining.

    No meio de todas estas mudanças, o Museu do Dundo continua a ser o guardião da memória lunda-cokwe, preservando a arte e a história dos povos da região.

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Especial · 4 regiões

Lunda Sul

Capital: Saurimo

  1. Até ao século XIX

    Antes da era colonial

    A actual Lunda Sul era um território de chefaturas lunda e cokwe, situado na fronteira sul do Império Lunda. Era uma terra de passagem, onde o poder do Mwata Yamvo se encontrava com outros povos e outras rotas.

    Por aqui passavam as rotas comerciais que levavam cera, marfim e escravizados para Kasanje e para a costa. Muconda e a zona de Saurimo eram pontos de passagem de caravanas, onde se trocavam mercadorias, notícias e influências.

    No século XIX, os Cokwe expandiram-se a partir das nascentes do Cuanza e do Cassai, ocupando novas terras e ganhando peso na vida da região, ao lado das chefaturas lunda já estabelecidas.

  2. Até 1975

    Era colonial

    Durante o período colonial, a região integrava o distrito da Lunda e fazia parte da concessão da Diamang, a companhia que dominava a economia e a vida de toda a Lunda.

    A vila de Saurimo recebeu o nome de Henrique de Carvalho, em homenagem ao explorador que atravessou a Lunda a caminho da corte do Mwata Yamvo. Tornou-se um centro administrativo e militar da administração colonial.

    As populações locais eram recrutadas para trabalhar nas minas e obrigadas a produzir culturas impostas pelo regime colonial, o que alterou profundamente a vida das aldeias e das famílias.

  3. 1975 até hoje

    Depois da independência

    Em 1978, com a divisão da antiga província da Lunda, Saurimo tornou-se capital da nova província da Lunda Sul.

    Nos anos seguintes, a província sofreu com a guerra civil e com o isolamento, que dificultaram a circulação de pessoas e bens e travaram o seu desenvolvimento.

    Em 1997 começou a produção da mina de Catoca, uma das maiores minas de kimberlito do mundo. A mina transformou a economia da província e colocou a Lunda Sul no centro da produção de diamantes do país.

    Depois da paz de 2002, Saurimo cresceu como polo universitário e regional, com novas estradas e equipamentos que a ligam melhor ao resto de Angola.

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Especial · 4 regiões

Moxico

Capital: Luena

  1. Até ao século XIX

    Antes da era colonial

    O Moxico é terra dos povos Luvale (Lwena), Cokwe, Mbunda, Luchazi e Nganguela, ligados pela sua origem às migrações lunda. São povos com línguas e costumes próprios, mas unidos por uma história comum.

    A Nhakatolo é a soberana tradicional dos Luvale, uma autoridade respeitada que guarda a memória e a unidade do seu povo. Moxico Velho foi um centro cokwe e lunda, lugar de poder e de encontro entre comunidades.

    A paisagem moldou a vida das populações. As chanas, grandes planícies alagadas, e os rios do sistema do Zambeze sustentavam a pesca, a caça, a recolha de mel e a agricultura de mandioca, base da alimentação da região.

  2. Século XX até 1975

    Era colonial

    A ocupação efectiva portuguesa do Moxico só aconteceu no início do século XX, muito depois da chegada dos portugueses ao litoral.

    O Caminho de Ferro de Benguela chegou à região na década de 1920, e a vila do Luso, actual Luena, cresceu em torno da linha, completada até à fronteira em 1929. O comboio mudou a economia e o desenho das povoações.

    Para as populações, o regime colonial trouxe trabalho forçado e impostos, que pesavam sobre as famílias e as aldeias.

    A luta de libertação marcou profundamente o Moxico. Em 1966, a UNITA foi fundada em Muangai, no Moxico, e nesse mesmo ano o MPLA abriu a Frente Leste a partir da Zâmbia.

  3. 1975 até hoje

    Depois da independência

    Após 1975, o Moxico foi um dos palcos mais duros da guerra civil. O caminho de ferro foi destruído e o território ficou semeado de minas terrestres.

    A 22 de fevereiro de 2002, Jonas Savimbi morreu em combate no Moxico. A 4 de abril de 2002 foi assinado o Memorando de Entendimento do Luena, que trouxe a paz a Angola.

    Seguiram-se anos de desminagem e reconstrução. O Caminho de Ferro de Benguela foi reconstruído e voltou a chegar ao Luau em 2015, e a cidade de Luena cresceu.

    Em 2024, a parte oriental do Moxico tornou-se uma nova província, o Moxico Leste.

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Especial · 4 regiões

Moxico Leste

Capital: Cazombo

  1. Até ao século XIX

    Antes da era colonial

    O Moxico Leste ocupa a região do Alto Zambeze, terra de Luvale, Lunda e Cokwe. Estes povos mantinham laços de parentesco e de comércio com os povos da actual Zâmbia e do Congo, muito antes de existirem as fronteiras de hoje.

    O rio Zambeze atravessa a região e dá-lhe vida. Aqui fica também o Lago Dilolo, o maior lago de Angola.

    As autoridades tradicionais, incluindo a Nhakatolo, tinham um grande papel na vida social, orientando as comunidades e guardando os seus costumes.

  2. Até 1975

    Era colonial

    A fronteira com a Rodésia do Norte, actual Zâmbia, e com o Congo Belga foi fixada por acordos coloniais, dividindo povos que partilhavam a mesma história.

    O Luau, então chamado Vila Teixeira de Sousa, tornou-se o terminal fronteiriço do Caminho de Ferro de Benguela. Cazombo foi o posto administrativo do Alto Zambeze.

    Durante a luta de libertação, a região serviu de corredor à Frente Leste do MPLA, que operava a partir da Zâmbia.

  3. 1975 até hoje

    Depois da independência

    Durante a guerra civil, muitos habitantes refugiaram-se na Zâmbia. Regressaram após a paz de 2002 para reconstruir as suas vidas e as suas terras.

    A 5 de setembro de 2024 foi criada a província do Moxico Leste. O nome inicialmente previsto, Cassai Zambeze, foi alterado após consulta à Nhakatolo Ngambo. A província foi institucionalizada a 30 de dezembro de 2024, com capital no Cazombo.

    Tem 9 municípios: Caianda, Cameia, Cazombo, Lago Dilolo, Lóvua do Zambeze, Luacano, Luau, Macondo e Nana Candundo, e mais de 400 mil habitantes.

    O Moxico Leste é visto como uma ponte económica entre Angola, a RDC e a Zâmbia. Em maio de 2026, o Presidente da República visitou a província.

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História Matéria 8

Henrique de Carvalho e a expedição à Lunda (1884–1888)

Quatro anos a caminho da corte do Mwata Yamvo, e uma obra que ainda hoje é fonte.

Entre 1884 e 1888, o oficial português Henrique Dias de Carvalho chefiou uma expedição ao interior de Angola até à corte do Mwata Yamvo, o soberano lunda. Foi uma das viagens mais longas e documentadas da época no Leste.

Pelo caminho registou tudo o que pôde: a lenda de Lueji e Chibinda Ilunga, as línguas dos povos que encontrou, os costumes, as autoridades tradicionais e os rios. Desenhou mapas de uma região que os europeus mal conheciam.

Desse trabalho nasceram obras de etnografia e história que ainda hoje são consultadas por investigadores, com o cuidado de lembrar que foram escritas com o olhar de um oficial colonial.

O seu nome ficou ligado ao território: durante o período colonial, a cidade de Saurimo chamou-se Henrique de Carvalho.

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Cultura Matéria 9

Os Luvale e a Rainha Nhakatolo

Um povo do Alto Zambeze, uma soberana tradicional e o nome de uma nova província.

Os Luvale, também chamados Lwena, vivem no Alto Zambeze, nas províncias do Moxico e do Moxico Leste, e do outro lado da fronteira, na Zâmbia. A cidade de Luena tem o nome deste povo.

A Nhakatolo é a soberana tradicional dos Luvale, uma autoridade respeitada nos dois países. O seu papel continua vivo nas grandes decisões da comunidade.

Quando se criou a nova província, o nome inicialmente proposto era Cassai Zambeze. O nome Moxico Leste foi escolhido depois de uma consulta à Nhakatolo Ngambo.

Na Zâmbia, o festival Likumbi lya Mize celebra os makishi luvale, os mascarados que acompanham os ritos de iniciação e que unem os Luvale de um lado e do outro da fronteira.

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Cultura Matéria 10

Música e instrumentos do Leste

Do nascimento ao funeral, cada momento da vida tem o seu ritmo.

No Leste, os tambores (ngoma) marcam os ritos e as festas. O seu som chama a aldeia, anuncia uma cerimónia e dá o passo às danças.

A sanza, ou kissanje, é um lamelofone de lâminas tocadas com os polegares, companheira das conversas e das histórias ao fim do dia. Os xilofones de madeira juntam-se nas festas maiores.

Há cantos de trabalho, que dão ritmo ao campo e à pesca, e cantos de iniciação, aprendidos no mukanda. Nas aldeias, as danças de mascarados juntam música, escultura e teatro.

A música acompanha a vida inteira: o nascimento, a iniciação, o casamento e os funerais.

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Cultura Matéria 11

À mesa no Leste

Mandioca, peixe dos grandes rios, catatos da época das chuvas e o célebre mel do Moxico.

A base da mesa é o funge de bombó, feito com farinha de mandioca seca. Ao lado vem muitas vezes a kizaca, as folhas de mandioca pisadas e cozinhadas.

Dos rios Zambeze e Cassai chega o peixe seco, que se guarda e viaja bem. A carne de caça completa as refeições nas aldeias.

Na época das chuvas aparecem os cogumelos e as lagartas, os catatos, apanhados e preparados com cuidado.

E há o mel do Moxico, célebre em todo o país, herdeiro de uma longa tradição de recolha nas florestas do Leste.

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Economia Matéria 12

Mel e cera: o ouro doce dos Cokwe

Como a cera, o marfim e a borracha levaram os Cokwe a todo o Leste.

No século XIX, os Cokwe eram grandes caçadores e recolectores de mel. Conheciam a floresta, as colmeias e os caminhos do Leste como ninguém.

A cera, o marfim e, mais tarde, a borracha eram trocados por armas e tecidos com comerciantes ovimbundu e portugueses.

Esse comércio deu-lhes riqueza e armas, e fortaleceu a sua expansão por todo o Leste, até ao coração do antigo Reino Lunda.

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Natureza Matéria 13

O Zambeze nasce perto de nós

O quarto maior rio de África passa pelo Leste de Angola antes de seguir para o Índico.

O rio Zambeze nasce na Zâmbia, perto da fronteira com Angola. Pouco depois entra no Leste angolano.

Atravessa o Alto Zambeze e passa pelo Cazombo, antes de voltar à Zâmbia. Nas suas margens vivem pescadores e agricultores que dependem das cheias.

É o quarto maior rio de África. Corre até ao Oceano Índico, em Moçambique, e pelo caminho passa pelas Cataratas Vitória.

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Natureza Matéria 14

Lago Dilolo, o maior lago de Angola

Águas ricas em peixe e aves, e a lenda de uma aldeia submersa.

O Lago Dilolo fica no Moxico Leste, perto da fronteira com a RDC. É o maior lago de Angola.

Deu o nome ao novo município de Lago Dilolo, criado com a nova divisão do Leste.

À sua volta contam-se lendas locais sobre uma aldeia que ficou debaixo das águas. As histórias passam de geração em geração.

O lago é rico em peixes e aves, e é uma fonte de alimento para as comunidades das margens.

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Natureza Matéria 15

Parque Nacional da Cameia

Chanas alagadas, aves aquáticas e lechwes no coração do Moxico.

O Parque Nacional da Cameia foi criado em 1957, no Moxico. É uma das áreas protegidas mais antigas do Leste.

As suas planícies de inundação estão ligadas ao Zambeze e ao rio Chifumage. Na época das chuvas, a água espalha-se pelas chanas, as planícies alagadas que dão ao parque a sua paisagem.

O parque abriga muitas aves aquáticas e antílopes como a lechwe, adaptada a viver em terrenos encharcados.

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Cidades Matéria 16

Luena, Saurimo, Dundo e Cazombo

Quatro capitais, quatro histórias: o comboio, a universidade, os diamantes e a fronteira.

Luena, a antiga Vila Luso, é a capital do Moxico. É servida pelo Caminho de Ferro de Benguela, que a liga ao litoral e à fronteira.

Saurimo, a antiga Henrique de Carvalho, é a capital da Lunda Sul e um polo universitário do Leste.

Dundo, capital da Lunda Norte, nasceu com a Diamang, como vila-sede da companhia de diamantes.

Cazombo é a capital do Moxico Leste desde 2024, junto à fronteira com a Zâmbia.

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Economia Matéria 17

O Caminho de Ferro de Benguela

Do Lobito ao Luau: destruído na guerra, reconstruído, e hoje parte do Corredor do Lobito.

O Caminho de Ferro de Benguela foi construído no início do século XX, desde o Lobito, no Atlântico, até ao Luau, a antiga Vila Teixeira de Sousa, na fronteira com a RDC.

Durante a guerra a linha foi destruída. Depois da paz foi reconstruída e, em 2015, os comboios voltaram a chegar ao Luau.

Hoje faz parte do Corredor do Lobito, que liga o Atlântico às minas do Congo e da Zâmbia e põe o Leste no caminho do comércio regional.

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Economia Matéria 18

Diamantes hoje: Catoca e Luele

Uma das maiores minas de kimberlito do mundo, uma mina nova e um ano recorde.

A mina de Catoca, perto de Saurimo, na Lunda Sul, é uma das maiores minas de kimberlito do mundo. Produz desde 1997.

A mina do Luele foi inaugurada em 2023 e abriu uma nova fase da exploração de diamantes no Leste.

Em 2024, Angola teve uma produção recorde de 13,9 milhões de quilates.

A Endiama mudou também para o Dundo a sede da sua fundação e da Endiama Mining, aproximando a empresa da terra dos diamantes.

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História Matéria 19

Do conflito à paz: o Memorando do Luena

Foi no Leste que a guerra civil terminou, em abril de 2002.

O Leste sofreu muito durante a guerra civil: aldeias abandonadas, estradas e pontes destruídas, famílias separadas.

A 22 de fevereiro de 2002, Jonas Savimbi morreu em combate no Moxico.

A 4 de abril de 2002 foi assinado o Memorando de Entendimento do Luena, que pôs fim à guerra.

O 4 de Abril é hoje o Dia da Paz e da Reconciliação Nacional, celebrado em todo o país.

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História Matéria 20

Habitação na Lunda no tempo da Diamang

Arquivo fotográfico sobre as casas, bairros e aldeamentos da Lunda Norte no tempo da Companhia de Diamantes de Angola (Diamang). As legendas são as do arquivo original.

Fotos: arquivo diamang.com — “Um espaço virtual dedicado à Diamang e à Lunda”. Licença Creative Commons Atribuição-Uso Não Comercial-Proibição de Obras Derivadas 2.5 Portugal. Imagens reproduzidas sem alterações.

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Cultura Matéria 21

Memórias do grupo Diamang Angola

Publicações partilhadas por membros do grupo público "Diamang Angola" no Facebook, reproduzidas com indicação do autor.

Esculturas adquiridas no Dundo (anos 60–70)

“A nossa colecção adquirida no Dundo, anos 60s - 70s pelo Victor Valente através do escultor amigo que trabalhava nos Cavalos. Todas as peças foram esculpidas por ele sem a certeza duma das máscaras montadas na vertical.”

— Graziela Valente, 24 de Novembro de 2024.

A publicação inclui 10 fotografias de esculturas e máscaras.

O busto da Sé-Catedral do Dundo: um enigma por decifrar

“Este busto é da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, Sé-Catedral, Dundo, Lunda Norte - Angola. Estamos com dificuldades de saber o que está escrito neste busto. Alguém que nos pode ajudar a decifrar o teor? Obrigado”

— Padre António Samalali, Pároco da Paróquia de Nossa Senhora da Conceição, Sé-Catedral do Dundo.

Sabe o que diz a inscrição? Ajude a preservar esta memória pelo Cadastro.

Marie-Louise Bastin, Muacefo Elias e a arte Cokwe

Num texto publicado no grupo, Moises Ganga recorda Muacefo Elias, guia e auxiliar da investigadora belga Marie-Louise Bastin (1918–2000), que esteve em Angola a convite da Diamang de Abril a Outubro de 1956. O trabalho de Bastin no Museu do Dundo, com informantes como Muacefo Elias, o intérprete Ditenda e o escultor Chamua Cariango, deu origem a dois volumes publicados em 1961 pelo Museu do Dundo, considerados obra de referência sobre a arte Cokwe. Segundo o autor da publicação, Bastin terá impedido que a peça original do Pensador (Kuku Samanhonga) fosse leiloada na Bélgica. O texto cita o livro «Angola, a vertigem da modernidade, e o lustro do passado» (2015).

“O que se pretende é saber se de facto existe alguém que reconhece o nome do Sr. MUACEFO ELIAS”

— Moises Ganga, 13 de Junho de 2025.

Conhece a família de Muacefo Elias? Partilhe pelo Cadastro.

O Hospital do Fucaúma

A publicação mostra uma fotografia aérea com a legenda «Hospital de Fucaúma, Abril 1975».

“A última vez que vi essa unidade hospitalar foi em 2009 e depois mandaram os chineses construir lá um posto médico. Que recuo francamente!”

— Afonso DM.

A primeira professora do liceu da Zona Mineira

“A nossa muito querida professora de Liceu, D. Ester Melo Abreu, faz hoje 105 anos!!! (hoje 9 de Maio 2025). Pioneira do ensino liceal da Zona Mineira da Diamang, ensinou dezenas de alunos desde 15 de Setembro de 1958 até fins dos anos 60s!”

— Graziela Valente.

A publicação inclui um vídeo com fotografias, entre elas uma do Dundo em 1951.

Festas religiosas no Dundo

“Como estamos na Páscoa, para recordar aqui vão algumas fotos de diversas celebrações religiosas. 1948 - Chegada da Nossa Sra de Fátima. 1957 - Dundo - Festa Grande. 1972 - Dundo - Comunhão e Missa Campal.”

— Graziela Valente.

A publicação inclui 5 fotografias de procissões e celebrações.

Joãozinho e Bukaka, craques do GDS

Fotografia antiga de dois futebolistas do GDS partilhada por N'simba De Jesus Bukaka. Nos comentários, são identificados como Joãozinho e Bukaka.

“O que o Messi faz o Joãozinho foi o primeiro a fazer. Grandes homens talentosos que o GDS já teve.”

— comentário de Jorge Tunganeno.

É da terra: a gastronomia do Dundo

Domingos Fernando Mwanutomena lembra que as memórias do Dundo não são só ruas e edifícios, e partilha uma fotografia de uma bacia cheia de insectos comestíveis, iguaria da terra (fotografia de Mussungue é a Banda).

“Os relatos dos filhos do Dundo (antiga Diamang) não fica a merecer apenas com as imagens das ruas e as suas construções”

— Domingos Fernando Mwanutomena.

Fonseca Sousa, etnógrafo do Dala

Moises Ganga recorda o etnógrafo Fonseca Sousa, natural do município do Dala, na Lunda Sul, falecido a 6 de Outubro de 2019. O seu livro «Etnografia de Angola – Entre a Pesquisa e o Desenvolvimento de Políticas Culturais» foi publicado em 2011, a partir de pesquisa iniciada no Brasil, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, e está esgotado. O segundo livro, «Provérbios de Angola, a Perspicácia do Espírito dos Tchokwes», saiu em 2012; um terceiro, «Os Hábitos Alimentares dos Tchokwes, uma Sugestão de Gastronomia Saudável», será publicado a título póstumo. Segundo o autor da publicação, a obra é tema de defesa nos cursos de Ciências Sociais da Universidade Lueji A'Nkonde.

“os seres humanos têm um ciclo de vida, os livros são eternos.”

— Moises Ganga.

O Sagrada Esperança dos anos 80 e 90: um apelo à memória

N'simba De Jesus Bukaka partilhou 19 fotografias da antiga equipa do G.D. Sagrada Esperança da Lunda-Norte e pede a quem tiver registos dessa geração que os partilhe.

“Peço encarecidamente a todos que tiverem qualquer registo (foto, vídeo, áudio, jornal ou revista, camisola ou um outro artigo qualquer, memórias ou recordações, etc.), desta geração (época 1984-1999). O favor de compartilhar comigo, serei eternamente grato por isso.”

— N'simba De Jesus Bukaka.

Tem recordações do Sagrada Esperança? Contacte o autor pela publicação original.

O Lucapa lembrado

Luz d'Oliveira Belchior recorda o Lucapa, com 5 fotografias da vila e da zona mineira.

“E quem é que pode esquecer o Lucapa, um lupango novinho em folha, todo serenidade! No ar pairava o cheiro a eucaliptos, e o futuro nas suas crianças a preto e branco... crianças que brincavam na mesma terra, a sua terra.”

— Luz d'Oliveira Belchior, 11 de Junho de 2015.

Andrada-Nova em vídeo

Vídeo de 3 minutos sobre a Andrada-Nova, partilhado por Graziela Valente a 22 de Fevereiro de 2024, «a pedido do Windhoek BV».

— Graziela Valente.

Hospital de Malúdi

Fotografia antiga a preto e branco do Hospital de Malúdi, com enfermeiras ou cuidadoras e um grupo de crianças. Foto de Luisa Ferreira, partilhada por Graziela Valente.

— Graziela Valente.

Luachimo, perto da barragem

Três fotografias do rio Luachimo junto à barragem: a paisagem com a estrutura da barragem e uma estrada, as águas calmas e as margens arborizadas, e os rápidos entre a vegetação. Partilhadas por Graziela Valente.

— Graziela Valente.

Tem fotografias ou memórias da Lunda? Envie pelo Cadastro e indique se podemos publicar com o seu nome.

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História Matéria 22

Documentário: a história de Angola em 10 minutos

Um vídeo curto em português, partilhado no Facebook, resume a história de Angola dos reinos antigos à paz de 2002. Não trata especificamente do Leste, mas ajuda a enquadrar a história das Lundas e do Moxico.

O que o vídeo conta

  • Os primeiros habitantes foram grupos caçadores-recolectores Khoisan; depois chegaram povos agricultores e metalúrgicos de línguas Bantu.
  • O Reino do Congo, fundado por volta do século XIV, e o Reino do Ndongo, cujos governantes tinham o título de Ngola, de onde vem o nome Angola.
  • 1482: chegada de Diogo Cão à foz do rio Congo. Seguiu-se o tráfico de escravizados para São Tomé e o Brasil.
  • 1575–1576: expedição de Paulo Dias de Novais e fundação de Luanda.
  • A resistência da rainha Nzinga Mbande (nascida por volta de 1582, morta a 17 de Dezembro de 1663), governante do Ndongo e da Matamba.
  • 1665: Batalha de Mbwila, em que morreu o rei António I do Congo.
  • 1961: início da luta armada pela independência, com o MPLA (Agostinho Neto), a FNLA (Holden Roberto) e a UNITA (Jonas Savimbi).
  • 25 de Abril de 1974: Revolução dos Cravos em Portugal; 11 de Novembro de 1975: independência de Angola.
  • Guerra civil até 2002; em 1987, a Batalha do Cuito Cuanavale.

Fonte: vídeo publicado no Facebook (autor não identificado na página). O próprio vídeo avisa que apresenta apenas uma parte da história.

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Pediatria no Dundo, 1952: Filomena, filha da Enfermeira Suzana
Pediatria no Dundo, 1952. Filomena, filha da Enfermeira Suzana.

História Matéria 23

Pediatria e maternidade nos serviços de saúde da Diamang

A galeria «Pediatria e Ginecologia» do arquivo fotográfico da Diamang reúne imagens de «gestantes, puérperas, bebés em diferentes centros de saúde da Diamang». As legendas mostram o trabalho de enfermeiras e médicos na pediatria do Dundo, em Calonda e no Muleleia, entre 1952 e 1967.

O que as fotografias mostram

  • Pediatria no Dundo, 1952: vacinação BCG de bebés, com a Enfermeira Suzana.
  • Pediatria no Dundo, 1952: Suzana Sabino na pediatria; um bebé adoptivo na maternidade.
  • Satxizambo, Dundo, Setembro de 1964.
  • Dundo, 1964: Natal na pediatria.
  • Calonda, Novembro de 1967: o Dr. Rocha Afonso.
  • Muleleia: «Micaela Caldas e Susana Sabino numa pesagem de mwana (criança) na concentração do Muleleia, na zona do Dundo».
  • Distribuição de alimentos.
  • Dundo, Natal de 1967: «Maria João, Suzana Sabino (avó da Suzana Mata), Laurentina Fardilha, Aida Nogueira, Idmeia Poeira, a Amélia Ressurreição».

A galeria tem mais de 60 fotografias e um vídeo. As fotografias estão protegidas pelo proprietário; aqui mostra-se apenas uma, com ligação à galeria original.

Fotografias: arquivo Diamang (diamang.com), licença CC BY-NC-ND 2.5 PT.

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Dançarino mascarado Makishi com traje de fibra e roupa de croché colorida
Dançarino Makishi. Fotografia: autor não identificado.

Cultura Matéria 24

Os Luvale: guardiões de tradições milenares em Angola

Conheça o povo Luvale (também chamado Lwena), um grupo étnico Bantu que habita principalmente as províncias do Moxico e Cuando Cubango em Angola, estendendo-se também pela Zâmbia e pela República Democrática do Congo. Este povo guarda uma das tradições mais importantes da África Austral, reconhecida pela sua profundidade cultural e espiritual.

O Mukanda: uma escola da vida

A joia da cultura Luvale é o Mukanda, o ritual de iniciação masculina. Mais do que uma simples circuncisão, o Mukanda é um complexo processo educativo que pode durar meses, em que os jovens aprendem valores comunitários, técnicas de sobrevivência e a ligação com os antepassados através das impressionantes máscaras Makishi, que representam espíritos ancestrais. A mascarada Makishi, que encerra o Mukanda, foi proclamada pela UNESCO em 2005 e inscrita em 2008 na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, numa candidatura da Zâmbia que abrange os povos Luvale, Cokwe, Luchazi e Mbunda.

O forte papel das mulheres numa sociedade matrilinear

A organização social Luvale é matrilinear: a linhagem e a herança passam pela linha materna, o que confere às mulheres uma posição de grande autoridade e influência na comunidade. São elas as responsáveis pela agricultura de subsistência (milho, mandioca, feijão) e pelo artesanato tradicional, sustentando a economia familiar como guardiãs de saberes ancestrais.

Contribuição para a cultura angolana

Os Luvale enriquecem o mosaico cultural angolano com a sua música polifónica, danças rituais e instrumentos tradicionais como tambores e marimbas. As suas práticas artesanais, incluindo a confecção de cestos, esteiras e esculturas em madeira, representam não apenas sustento económico, mas a perpetuação de conhecimentos transmitidos através de gerações.

Espiritualidade e ligação ancestral

A espiritualidade Luvale centra-se na crença em Kalunga (o ser supremo) e num profundo culto aos antepassados. Através de rituais que envolvem música, dança e instrumentos tradicionais, mantêm viva a ligação entre o mundo material e o espiritual, fortalecendo a sua identidade cultural.

Texto: contributo de Anilson Geremy Congo (TLL – Talent Lunda Leste). Fotografia: autor não identificado. Referência UNESCO: Makishi masquerade, Zâmbia, inscrita em 2008 — ich.unesco.org/en/RL/makishi-masquerade-00140

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Ilustração de um arqueiro Luvale com arco, favos de mel e máscara
Ilustração digital. Autor não identificado.

Cultura Matéria 25

Reino dos Luvale — o reino do arco e da abelha

Luvale, Luena, Lwena. Vivem onde Angola, Zâmbia e RDC se encontram, nas províncias do Moxico e do Moxico Leste. São um povo do grupo Nganguela, agricultores, colectores de mel e ferreiros.

Origem

Segundo a tradição, os Luvale vêm do Império Lunda. Por volta de 1600–1700, um chefe Lunda chamado Chinyama ter-se-á separado da corte da Mussumba e migrado com o seu povo para além do rio Zambeze, onde fundou a sua própria chefia. Mwene é o título de rei. A tradição da Rainha Nhakatolo, título feminino e matrilinear, também vem da tradição Lunda.

Como viviam

Não tinham uma capital de pedra. O reino era móvel, assente em aldeias na floresta de miombo: a capital era onde o Mwene estivesse.

A riqueza do reino

  1. Ferro — eram ferreiros reconhecidos.
  2. Cera e mel — eram grandes fornecedores de cera de abelha do interior, produto que, a par do marfim, entrava no comércio das caravanas Ovimbundu para Luanda e Benguela.
  3. Makishi — as máscaras sagradas, que funcionavam como tribunal, polícia e escola da iniciação Mukanda.

A ocupação portuguesa

Segundo o texto recebido, o primeiro português na região foi José de Assunção e Melo, em 1794, numa missão comercial. A ocupação efectiva só começou a 3 de Março de 1895, com Trigo Teixeira, que fundou Moxico-Novo, hoje Luena. A região só foi totalmente ocupada nos anos 1920, quando chegou o Caminho de Ferro de Benguela e Moxico-Novo passou a Vila Luso, em 1922. Houve resistência armada, sobretudo dos Bunda e dos Luvale, contra comerciantes e contra a ocupação, o que explica que esta tenha sido tardia em comparação com o litoral.

Hoje

Os Luvale continuam a existir como povo transfronteiriço. Na Zâmbia, o luvale é língua regional usada no ensino. Em Angola têm autoridades tradicionais reconhecidas, como o Mwene Mutondo, no Cazombo. A Rainha Nhakatolo continua a reinar: Ana Bela Ngambo Kaumba foi entronizada a 7 de Setembro de 2024, no Cazombo, durante o 10.º Festival do Povo Luvale. Em 2024, com a criação da província do Moxico Leste, o Cazombo tornou-se capital provincial, no coração histórico Luvale. As máscaras Makishi, presentes no festival Likumbi Lya Mize, estão inscritas desde 2008 na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da UNESCO (candidatura da Zâmbia).

Texto: contributo enviado a TLL – Talent Lunda Leste; datas da ocupação colonial e da origem segundo o texto recebido e a tradição oral, não verificadas de forma independente. Entronização de 2024: ANGOP, 7/9/2024 — angop.ao/noticias/lazer-cultura/rainha-nhakatolo-ngambo-tornar-se-6-soberana-do-povo-luvale

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Dançarino Makishi no Festival Mize
Fotografia: Governo de Angola.

Cultura Matéria 26

Conheça o Mize: o festival tradicional do povo Luvale

Mize é uma palavra da língua luvale que, em português, significa “arbustos lenhosos”. A sua origem remonta a um local nas margens do rio Zambeze, na região de Lumbala Kaquengue, onde, em tempos antigos, densos arbustos serviam de refúgio e de ponto estratégico para o povo Luvale.

As origens no século XVIII

A história do festival leva-nos ao século XVIII, tendo como figura central o Rei Kaquengue Tchivanda Sacaiombo (Thutamikhochi), filho da Rainha Nyakatolo Ngambo. Numa época marcada por conflitos e disputas territoriais, o soberano procurava proteger o seu povo, preservar a integridade do território e salvaguardar os valores culturais e tradicionais herdados dos antepassados.

Foi nesse contexto que o rei promovia, anualmente, grandes encontros com sobas, regedores e outras autoridades tradicionais. Nessas assembleias eram debatidas questões de interesse social e económico e, sobretudo, estratégias de defesa, preservação da identidade cultural e fortalecimento da unidade entre os povos.

Os encontros realizavam-se num local cercado por densos arbustos “Mize” que, inicialmente, serviam de esconderijo e protecção. Com o passar do tempo, à medida que a paz e a resistência do povo prevaleciam, o mesmo espaço transformou-se num símbolo de união, celebração e afirmação da cultura Luvale.

O renascimento do festival

O Festival Mize ganhou maior expressão nas décadas de 1950 e 1960, graças ao empenho dos irmãos John Modella e Will Modella, naturais de Cavungo, actual município de Nana Candundo. Depois de concluírem a quarta classe, emigraram para a Zâmbia, onde aprofundaram os seus conhecimentos sobre a história, os costumes e as tradições do povo Luvale junto das autoridades tradicionais daquele país. A primeira tentativa de realização do festival ocorreu na década de 1960, embora sem os resultados esperados.

Com as transformações sociais ao longo dos anos e o firme propósito de manter viva a identidade cultural do povo Luvale, o projecto foi sendo aperfeiçoado. Em 2010 realizou-se a primeira edição do Festival Mize no seu formato moderno, conciliando uma organização mais estruturada com o respeito pelos valores e tradições ancestrais.

Angola e Zâmbia

O Festival Mize também é celebrado na Zâmbia. Em Angola, o município do Cazombo é o anfitrião desta grande manifestação cultural, que reúne a comunidade Luvale e visitantes de várias regiões do país e do mundo.

Rainha Nyakatolo sentada no trono, rodeada pela comunidade
Rainha Nyakatolo. Fotografia: Governo Provincial do Moxico Leste.

A edição anunciada

Segundo o comunicado, nessa edição as honras tradicionais seriam prestadas, pela segunda vez, à Rainha Nyakatolo Ngambo, representada por Ana Bela Ngambo, figura de elevada consideração e profundo respeito no seio da comunidade Luvale. O momento alto do festival estava marcado para 22 de Julho, na Arena Vakha Tchinhama Cha Mukamayo, no Bairro Vambunda, município do Cazombo, com danças, rituais, música e batuques.

Fonte: Gabinete de Comunicação Social do Governo Provincial do Moxico Leste (comunicado; ano não indicado no texto recebido). Fotografias: Governo de Angola / Governo Provincial do Moxico Leste.

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Mwanangana Ndungu Songe em traje cerimonial de pele de leopardo
Imagem partilhada pela página Academia Chokwe. Autor não identificado.

Cultura Matéria 27

O Triângulo: Chokwe e Luvale entre Angola, Zâmbia e RDC

O memorável Mwanangana Ndungu Songe, dos Luvale da Zâmbia, é lembrado como protagonista e defensor da unidade entre os Chokwe e os Luvale da Zâmbia, sem esquecer os Lunda-Ndembo, os Luchazi e os Mbunda.

Na Província do Noroeste da Zâmbia

Todos estes povos partilham a Província do Noroeste da Zâmbia, onde os Chokwe são representados por:

  1. Mwanangana Mwakandala wa Phezo
  2. Mwanangana Mwandumba

A ligação à RDC e a Angola

Ambas as entidades trabalham em estreita colaboração com o Mwanangana Mwachisenge Samutoma, da República Democrática do Congo, com residência no território de Sanduwa, na Província do Lualaba (região do Katanga).

Este, por sua vez, colabora com a Corte Real Chokwe, representada ao mais alto nível pelo Mwene Mwachisenge wa Tembo, no município de Saurimo, com súbditos nas províncias da Lunda Norte, Lunda Sul, Moxico e Cuando Cubango, nas regiões Leste e Sul de Angola.

Chingoloshi chipema, mwane!

Fonte: página Academia Chokwe (Facebook). Autor do texto desconhecido. Informação de tradição e memória comunitária, não verificada de forma independente.

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Jovens iniciados Luvale em fila, com saias de fibra
Iniciados do Mukanda. Fotografia: Governo de Angola.

Cultura Matéria 28

Conheça o Mukanda: o ritual de circuncisão masculina dos povos Luvale

A comunidade Luvale é uma das mais representativas da região Leste de Angola e destaca-se pela preservação dos seus valores culturais. Entre as suas tradições mais importantes encontra-se o Mukanda, ritual de circuncisão masculina que representa uma verdadeira escola de formação moral, social e cultural.

O Mukanda simboliza a passagem da adolescência para a idade adulta. Durante este processo, o adolescente, denominado Candandji, permanece num espaço reservado, afastado do convívio familiar, onde recebe ensinamentos sobre respeito pelo próximo, disciplina, responsabilidade, vida conjugal, valorização da família e preservação das tradições. O período de iniciação pode durar entre dois meses e um ano, conforme os ensinamentos a transmitir.

Recinto vedado com capim
Fotografia: Governo Provincial do Moxico Leste.

Kulomba: o banho do renascimento

Uma das etapas mais marcantes é o Kulomba, o ritual do banho. Pela primeira vez, o Candandji é conduzido a um rio ao som de cânticos tradicionais, onde mergulha num acto que simboliza a purificação, o renascimento e o despertar para a vida adulta. Para os Luvale, este momento é frequentemente comparado ao baptismo.

A disciplina e o juramento

Durante o Mukanda, o Candandji cumpre regras rigorosas, como evitar o contacto com mulheres, incluindo a própria mãe, e com pessoas não circuncidadas. Antes de cada refeição, os iniciados entoam o Kulieye, um cântico que fortalece a disciplina e o espírito de união.

Antes da saída, os iniciados — Candandji (singular) e Thundandji (plural) — prestam o juramento denominado Txijila, comprometendo-se a guardar sigilo sobre os ensinamentos e vivências do Mukanda, conforme determina a tradição Luvale.

Ao amanhecer e ao entardecer, participam ainda em cânticos que expressam saudades das famílias, incentivam os jovens ainda não circuncidados e transmitem ensinamentos sobre o respeito pelos mais velhos e pela comunidade.

Mural com homem a carregar dois cestos numa vara, com a palavra Muxiko
Mural no Moxico Leste. Fotografia: Governo Provincial do Moxico Leste.

Kulohoka: a cerimónia da saída

O Kulohoka, que significa “saída”, marca o encerramento do Mukanda. É uma grande celebração comunitária em que familiares e amigos recebem os novos iniciados, num ambiente de festa e valorização da cultura.

Quando participam jovens de famílias diferentes, estes tornam-se irmãos para toda a vida e adoptam alcunhas escolhidas por si. O primeiro iniciado é denominado Kambungo e o último Hapwa Songo. Durante todo o processo são acompanhados pelos Tchilombola, seus guardiões e orientadores, sob a liderança do Tchijika Mukanda, a autoridade máxima responsável por dirigir o ritual e assegurar o cumprimento das normas e tradições.

Na cerimónia de saída, os Candandji vestem roupas novas, caminham com os rostos voltados para baixo e são acompanhados pela comunidade, simbolizando o nascimento de um novo homem, preparado para assumir responsabilidades familiares, sociais e conjugais.

Um legado vivo

O Mukanda permanece como um dos maiores patrimónios culturais dos povos Luvale e de outras comunidades da região Leste de Angola. A sua importância é igualmente celebrada durante o Mize, cerimónia tradicional realizada anualmente na vila do Cazombo, onde se reafirmam a identidade, a história e os valores ancestrais.

Mukanda: tradição, identidade e sabedoria. Um legado que honra o passado, educa o presente e prepara o futuro.

Fonte: Gabinete de Comunicação Social do Governo do Moxico Leste. Fotografias: Governo de Angola / Governo Provincial do Moxico Leste.

Ler também: Conheça o Mize

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Menina com pano colorido e missangas
Imagem ilustrativa. Fotografia: Jeed (marca de água).

Cultura Matéria 29

Nomes africanos e os seus significados: etnia Lwena ou Luvale

Na etnia Lwena ou Luvale, da região Leste de Angola, cada nome guarda um significado: uma qualidade, uma história de família ou as circunstâncias do nascimento.

Chisola
O nome deriva do verbo kusola, que significa bater. É dado a quem trabalha duro; na sua forma simples, significa trabalho duro.
Sombo
Significa anjo. É um nome dado a uma mulher bonita e amorosa.
Musole
O musole é uma árvore de frutos doces chamados jisole. É um nome dado a mulheres e homens de espírito livre, que costumam despertar o melhor de quem os rodeia.
Kaumba
Significa inventor, inovador, génio. É um nome masculino.
Kakoma
Nome real que significa sentar-se sobre os próprios problemas: Kakoma milonga akoma milonga yavakwavo yenyi atwamaho. Em termos simples, Kakoma é o nome dos chefes que resolvem os problemas dos outros mas não os seus, porque, sendo realeza e tendo toda a autoridade, não há ninguém que os julgue ou questione.
Kayombo
Significa corajoso, poderoso, destemido e forte. Lembra Kayombo ka Kutemba e a sua espada voadora, que, segundo a tradição, venceu milhares para proteger os Luvale. É um nome masculino.
Chinyemba
Chinyemba chakutwa makuku, likumbi lya kufwa majila kupunda. Nome real dado a uma alma livre: aquele que espalha amor e cuja morte leva um clã inteiro ao declínio.
Kheke
Misericórdia.
Kutemba
De alitembala kuwaha chenyi, ela orgulha-se da sua beleza. O nome significa orgulhoso.
Chindele
Alguém que faz coisas extraordinárias. Hoje é usado, por engano, para designar um homem branco.
Sakwimba
Um grande cantor.
Sakuhuka
Criador de problemas.
Samukonga
Um homem alto, de coluna longa.
Chilombo
Um grande campo de pesca ou de caça. É um nome dado a uma pessoa acolhedora.
Chijika
Aquele que nasce depois de gémeos.
Kahalu
Aquele que fica quando o irmão ou irmã gémeo morre ao nascer.
Kahilu
O retorno. Nome dado a um bebé nascido depois da morte, ao nascer, do irmão imediatamente anterior.
Fumbelo
Riqueza.

Fonte: texto partilhado por Alto Zambezino. Significados segundo a tradição oral Luvale.

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Dançarino Makishi com grande máscara redonda preta e vermelha
Mascarada Makishi.

Cultura Matéria 30

Por que os Luvale, Chokwe, Mbunda e Luchazi são chamados Vaka Chinyama

Quando o fundador da nação Luvale, Chinyama cha Mukwamayi, deixou o reino de Mwata Yamva, depois de a sua irmã Luweji se casar com o luba Chibinda Ilunga, que mais tarde se instalou como chefe, partiu em busca de terras. Com ele seguiram grupos de pessoas.

Chinyama seguiu o irmão mais velho, Chinguli, que foi o primeiro a sair e estabeleceu a sua chefia mais a sul, de Angola até ao actual norte da Namíbia.

Chinyama cha Mukwamayi, Ndonji e a irmã Kalumbu mudaram-se juntos. Os irmãos ajudaram-no a estabelecer as tribos Luvale, Chokwe, Luchazi e Mbunda em Angola, por volta de 1524, segundo a tradição.

Os Mbunda

Os Mbunda fazem parte do grupo Luvale liderado por Chinyama cha Mukwamayi. O seu chefe mais importante era conhecido como Likovu lya Matumbo, e os seus seguidores eram Mwe Kandala e Mwe Chiyengele, que mais tarde migraram para o Barotseland. Há várias teorias sobre essa migração. Alguns historiadores lozi atribuem-na a um convite de Mulambwa (segundo Jalla) ou a uma disputa em Angola entre os chefes mbunda Nawa e Mainga. Sejam quais forem as razões, os Mbunda tiveram impacto e influência sobre os Lozi.

Os Luchazi

A migração luchazi de Ikalanyi começou com a partida de Chinyama cha Mukwamayi, juntamente com o irmão mais novo Ndonji, a irmã Kalumbu e a sobrinha Ngambo ya Mushinda. Chinyama partiu à procura de novas terras em Angola e, mais tarde, na Zâmbia.

Ndonji tornou-se líder dos Chokwe, enquanto Ngambo casou com um Mbwela e teve com ele um filho chamado Mutunda. Mutunda wa Ngambo tornou-se líder dos Luchazi. Os Luvale e os Luchazi são, portanto, primos de sangue. O nome Luchazi deriva do riacho, em Angola, onde o seu líder acampou.

Os Chokwe

Os Chokwe são uma mistura dos Lunda liderados por Chinyama e Ndonji com os Mbwela. Na língua, usam subclasses animadas e inanimadas de substantivos e formas possessivas directas e descritivas. O seu antepassado Ndonji ya Konde, irmão de Chinyama, partiu para fundar a chefia chokwe. Outros líderes chokwe conhecidos foram Mwa Ndumba, Mwa Tembo e Mwa Kawewe.

A expansão chokwe começou no século XIX, através do comércio de marfim e de escravos. Segundo McCulloch, citado na fonte:

Os Chokwe tornaram-se suficientemente poderosos em meados do século XIX para invadir várias vezes o reino lunda de Mwata Yamvo (Muteba), chegando a matar o próprio chefe e a capturar a rainha-mãe.

A migração para a Zâmbia começou por volta de 1920. Líderes como Samafulo, Sengwa e Samiyengo estabeleceram-se na metade oriental dos distritos de Zambezi e Kabompo. A principal vaga de migração chokwe a partir de Angola começou por volta de 1928, depois de pesadas represálias dos portugueses.

Até hoje, os Luvale, Mbunda, Chokwe e Luchazi são uma família unida, que pratica quase a mesma cultura e as mesmas crenças.

Fonte: Likumbi Lya Mize. Créditos informativos: trecho do livro Likumbi Lya Mize, de Patrick Wele, e outros livros de cerimónias Luvale. Datas e genealogias segundo a tradição e a fonte citada, não verificadas independentemente.

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Retrato a preto e branco de Moïse Tshombe de chapéu
Moïse Tshombe.

História Matéria 31

Moïse Tshombe: origem lunda, alianças no Catanga

Moïse Tshombe era, antes de mais, de origem lunda, mas a sua base de poder político e as alianças que formou incluíam fortemente os Tchokwe e outros grupos.

1. Origem étnica e familiar: lunda

  • Etnia lunda: Moïse Kapenda Tshombe (1919–1969) nasceu numa família proeminente ligada à aristocracia lunda. O pai, Joseph Kapenda Tshombe, foi um rico empresário, ligado à linhagem real do Império Lunda do Mwant Yav (Mwata Yamvo).
  • Base inicial de poder: a origem familiar deu-lhe uma base natural de poder no Catanga, região de forte presença lunda. A secessão do Catanga, proclamada a 11 de Julho de 1960, foi amplamente apoiada pela elite tradicional lunda, que via na independência da região uma forma de preservar o seu poder e a riqueza mineral da província (cobre, cobalto).

2. A aliança política com os Tchokwe

  • Contexto pós-independência: após a independência do Congo, em 1960, as linhas políticas nem sempre seguiram rigidamente as linhas étnicas. Os líderes formavam alianças para alargar a sua base de apoio.
  • CONAKAT: o partido de Tshombe, a CONAKAT (Confédération des Associations Tribales du Katanga), começou como uma aliança de associações tribais, inicialmente dominada pelos Lunda.
  • Inimigo comum: a CONAKAT via como ameaça a influência de outros grupos, sobretudo os Luba-Kasai, vindos de outras regiões do Congo e com muitos lugares na administração do Catanga. Para lhes fazer frente, Tshombe e a CONAKAT aliaram-se a outros grupos autóctones do Catanga, entre eles os Tchokwe (também escrito Cokwe ou Chokwe).
  • Uma frente de vários povos: a secessão foi apresentada como um projecto de todos os povos nativos do Catanga, e não apenas dos Lunda. Um exemplo é Jean-Baptiste Kibwe, de origem bwile, que foi ministro das Finanças e, a partir de 30 de Agosto de 1960, vice-presidente do Estado do Catanga, ao lado de Tshombe e Godefroid Munongo.

Texto partilhado pelo utilizador. Datas e cargos verificados em fontes públicas sobre o Estado do Catanga.

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Traje de máscara com grande toucado entrançado, em museu
Arte lunda e cokwe em exposição.

Cultura Matéria 32

Lunda Norte: poder ancestral e riqueza dos diamantes

A província da Lunda Norte, no nordeste de Angola, guarda uma das histórias mais fascinantes de África. É a terra do antigo Império Lunda, onde a tradição e a economia moderna se cruzam.

O mito fundador: a lenda de Lweji

Tudo começou com uma crise na família real. O rei Kundi tinha dois filhos, Tchinguri e Tchinhama, violentos e desrespeitosos. Por causa do seu mau comportamento, o rei decidiu que nenhum deles herdaria o trono.

Em vez disso, entregou o poder à filha mais nova, Lweji. Ela recebeu o lukano, uma pulseira sagrada que simboliza o poder, e tornou-se líder dos Lunda.

O caçador estrangeiro e a expansão

A história mudou com a chegada de Tchibinda Ilunga, um nobre caçador do povo Luba, que trazia técnicas de caça desconhecidas dos Lunda. Lweji apaixonou-se por ele e casaram-se.

Os irmãos de Lweji não aceitaram o casamento e revoltaram-se. Derrotados, partiram para outras terras:

  • Tchinguri foi para oeste e fundou o reino de Cassanje.
  • Tchinhama seguiu para sul, dando origem ao povo Tchokwe (Quioco), segundo esta versão da tradição. (Noutras versões, como a da matéria 30, Chinyama é apresentado como fundador da nação Luvale.)

Diamantes e economia

A Lunda Norte não vive apenas do passado. Em 1912, foram descobertos os primeiros diamantes no rio Musalala.

  • Diamang: a empresa que dominou a exploração durante o período colonial.
  • Endiama: criada depois da independência, gere hoje a riqueza mineral da região.

Os diamantes continuam a ser o motor económico da província, com grandes desafios de desenvolvimento.

Cultura e arte: o Pensador

A região é famosa no mundo inteiro pela sua arte. Os povos Lunda e Tchokwe são mestres da escultura.

  • O Pensador (Samanyonga): estátua de um homem sentado com as mãos na cabeça, que se tornou símbolo nacional de Angola.
  • Máscara Mwana Pwo: representa a beleza e as virtudes da mulher.
  • Museu do Dundo: criado em 1936, é um dos museus mais importantes de África, com mais de 10 mil peças históricas e etnográficas.

A Lunda Norte é um mosaico de povos, Cokwe, Lunda, Baluba e outros, que mantêm vivas as suas danças e rituais, como o Mukanda, a circuncisão masculina, provando que a sua cultura é tão resistente e brilhante como os seus diamantes.

Texto: #talentlundaleste. Fotografias enviadas pelo utilizador. Lendas segundo a tradição oral.

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Jardins do Palácio do Governo Provincial, em Saurimo
Jardins do Palácio do Governo Provincial, Saurimo (2015). Foto: Fmanuel090, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Cultura Matéria 33

Lunda Sul: Saurimo e o rei dos Cokwe

A Lunda Sul é a irmã da Lunda Norte. Foi ali que nasceu o antigo distrito da Lunda, e é em Saurimo que vive hoje o Mwatchissengue Wa Tembo, rei dos Cokwe.

De onde vem o nome Saurimo

O nome vem do cokwe «Sa Urimbo» (ou «Sa-ulimbo»), o nome de um antigo chefe da região. «Urimbo» é a cola pegajosa usada para apanhar pequenas aves.

Em 1806, os primeiros registos europeus falam de uma disputa entre os reinos de Cazembe e de Sa-Urimbo pelo domínio destas terras. Ambos eram então vassalos do grande reino Lunda.

Saurimo, Henrique de Carvalho e Saurimo outra vez

  • 1884: chega o explorador Henrique de Carvalho, enviado por Portugal à Lunda.
  • 13 de julho de 1895: é criado o distrito da Lunda, com capital em Saurimo.
  • 1896 a 1921: por ser de difícil acesso, a capital passa para Malanje e só depois volta a Saurimo.
  • 1923: Saurimo passa a chamar-se Vila Henrique de Carvalho.
  • 1956: é elevada a cidade, com o nome Henrique de Carvalho.
  • 1975: com a independência, volta a chamar-se Saurimo.
  • 4 de julho de 1978: a província da Lunda é dividida em duas: Lunda Sul, com capital em Saurimo, e Lunda Norte.

Terra de rios

A leste, o rio Cassai faz a fronteira com a República Democrática do Congo. Pela província correm também o Cuango, o Chiumbe, o Luachimo e o Chicapa, que banha Saurimo. Todos acabam por levar as suas águas ao Cassai e, por ele, à grande bacia do rio Congo.

A província tem cerca de 77 636 km², com municípios como Saurimo, Cacolo, Dala e Muconda. A maioria da população é cokwe, ao lado de povos ambundos, ganguelas e luvale.

O rei dos Cokwe vive em Saurimo

O título do rei dos Cokwe é Mwatchissengue Wa Tembo. A sua ombala, a capital histórica e cultural do reino, é o Itengo, a cerca de 50 quilómetros de Saurimo.

O atual rei, de nome próprio José Estêvão, foi entronizado em 2016, depois da morte do tio, o rei Ndumba Alberto, que o escolheu como sucessor. Para isso passou pelo ritual obrigatório: o lukano, a pulseira sagrada do poder, é posto num prato com barro branco e levado ao santuário, onde se invocam os antepassados da linhagem. (O lukano é o mesmo símbolo que, segundo a tradição, o rei Kundi entregou a Lueji, como conta a matéria 1.)

Nas cerimónias, o rei usa o traje tradicional e os três símbolos do poder cokwe: o mufuka (espanta-moscas) e dois bastões esculpidos em madeira, uma bengala e um ceptro.

Segundo ele, a cultura tradicional «agora está viva», e os jovens voltam a interessar-se pelos contos, rituais e escolas tradicionais, como o Mukanda para os rapazes.

Saurimo hoje

Saurimo é o grande centro comercial do Leste: o mercado Portão do Leste, à entrada da cidade, liga-a a Luanda, ao Dundo, a Luena e a Malanje. Perto fica a mina de Catoca, na fronteira com a Lunda Norte. A cidade tem um campus da Universidade Lueji A'Nkonde e, em abril de 2026, recebeu a visita do Papa Leão XIV.

Texto: #talentlundaleste. Fontes: Wikipédia (artigos «Lunda Sul» e «Saurimo», com base em C. Jeremias, Estudo da toponímia do Município de Saurimo, Univ. Nova de Lisboa, 2015); Lusa/Ver Angola, 27 abr 2026; Lusa/RTP. Fotografias: Fmanuel090, CC BY-SA 4.0.

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Mwene Mbandu III na coroação, em 2008
Mwene Mbandu III no dia da sua entronização, em 2008. Foto: Ndandulalibingi, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

Cultura Matéria 34

Os Mbunda: o povo do arco e da flecha

Os Mbunda, ou Vambunda, são um povo banto do sudeste de Angola, com raízes no Moxico e no Cuando Cubango e parentes espalhados pela Zâmbia, Namíbia e outros países vizinhos. Fazem parte, com os Luvale, Cokwe e Luchazi, dos povos Vaka Chinyama.

Quem são

  • Nome: uma pessoa é Kambunda; o povo, Vambunda; a língua, Chimbúùnda.
  • Território tradicional: do rio Lungué-Bungo, no Moxico, até ao Cuando Cubango.
  • Subgrupos: Mbunda Mathzi (Katavola), Yauma, Nkangala, Mbalango, Sango, Shamuka e Ndundu, cada um com o seu dialeto.
  • Os Mbunda são muitas vezes incluídos no grupo mais largo dos Ganguela.

O reino de Lumbala Nguimbo

Segundo a tradição oral, o primeiro rei dos Mbunda foi Mwene Nkuungu. Os Mbunda instalaram-se primeiro junto aos afluentes do Zambeze e foram descendo para sul, até fazerem de Lumbala Nguimbo, no atual município dos Bundas (Moxico), a capital do reino.

Em 1914, os portugueses capturaram o rei Mwene Mbandu I Lyondthzi Kapova. Os Mbunda resistiram com espingardas de carregar pela boca e com o arco e a flecha, mas, sem pólvora, acabaram derrotados, e o reino foi anexado. Muitos fugiram para a Barotselândia, na atual Zâmbia.

A monarquia foi restaurada em agosto de 2008, com a entronização de Mwene Mbandu III (Mbandu Lifuti) em Lumbala Nguimbo, como 23.º rei. Ele morreu em julho de 2021. O sucessor, João Pedro Mussole, Mwene Mbandu IV, foi entronizado em outubro de 2022 e também já faleceu. Em agosto de 2024, a entronização do 25.º rei foi adiada por contestação de familiares.

Guerreiros e aliados na Zâmbia

A partir do fim do século XVIII, grupos mbunda migraram para a Barotselândia. O rei lozi Mulambwa valorizava-os como guerreiros e selou com o chefe Mwene Chitengi Chiyengele um tratado de amizade. Os Mbunda lutaram ao lado dos Lozi contra os Makololo, por volta de 1830, e ainda hoje têm chefes tradicionais no oeste da Zâmbia.

Mukanda e Makishi

Como os Cokwe e os Luvale, os Mbunda praticam o Mukanda: os rapazes vivem de três a seis meses num acampamento no mato, onde aprendem a sobreviver, a respeitar a natureza e os valores do grupo. Nesse período dançam os Makishi, máscaras de que os Mbunda dizem ter mais de cinquenta tipos próprios. As raparigas têm o seu ritual, o Litungu ou Bwali.

Segundo a tradição mbunda, o Mukanda chegou ao reino pelo príncipe consorte Mukwetunga Kamenga. Como o ritual era só para homens, a rainha Mukenge Livindamo foi a última mulher a reinar.

Mãos que trabalham

Os Mbunda são conhecidos como ferreiros, trabalhadores do cobre, caçadores e pescadores. Os homens esculpem pilões, canoas, bancos e instrumentos como os tambores vinkuvu; as mulheres fazem cestos com raízes e pescam com cestos especiais. A mandioca é a base da alimentação, ao lado do milho, da massambala e do massango.

Todos os anos, em agosto, os Mbunda de vários países juntam-se em Lumbala Nguimbo para a festa Lithathe Lya Miondo Ya Mbunda, com Makishi, esculturas, comida e danças tradicionais.

Texto: #talentlundaleste. Fontes: ANGOP (2021, 2022, 2024); Wikipédia, «Mbunda people» e «Mbunda Kingdom» (com base em R. Papstein, The History and Cultural Life of the Mbunda Speaking People, 1994). Tradições segundo a história oral mbunda. Fotografias: Ndandulalibingi, CC BY-SA 3.0.

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Pôr-do-sol sobre o rio Cassai
Pôr-do-sol no rio Cassai, perto de Tshikapa (RDC), já depois de o rio deixar Angola. Foto: Sagar Bhatt, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

Natureza Matéria 35

O rio Cassai: a grande estrada de água do Leste

O Cassai (ou Kasai) nasce no Planalto Central de Angola, entre o Bié e o Moxico, atravessa o Leste, serve de fronteira com a República Democrática do Congo e acaba por entregar as suas águas ao rio Congo. É um dos maiores rios da África Central.

Em números

  • Nascente: planalto do Bié, a cerca de 1.300 metros de altitude.
  • Extensão: cerca de 2.150 a 2.270 km, conforme a fonte.
  • Bacia: perto de 880 mil km², parte da grande bacia do Congo.
  • Foz: no rio Congo, em Kwamouth, cerca de 170 km a norte de Quinxassa.

O caminho

Depois de nascer, o Cassai corre para leste até chegar à fronteira entre Angola e a RDC. Aí vira para norte e passa a servir de fronteira entre os dois países, até entrar de vez no Congo. No Moxico Leste, é o Cassai que marca a fronteira com a Lunda Sul. Na região ficam também as quedas do Cassai, que a ANGOP aponta entre os atractivos do Moxico Leste, ao lado do Parque Nacional da Cameia.

Pelo caminho recebe rios bem conhecidos do Leste, como o Chicapa, o Lóvua, o Luembe e o Luau, e mais abaixo o Cuango, que chega com o Cuílo.

Rio de povos e de nomes

Segundo a tradição oral, foi até ao Cassai que se espalharam os grupos a quem os Lunda chamavam "aioco", nome que teria dado origem a Cokwe. Na Lunda Sul, os municípios de Cassai-Sul e Luma Cassai têm o rio no próprio nome.

Na preparação da nova divisão político-administrativa, a nova província do Leste chegou a ter o nome proposto de Cassai-Zambeze, juntando os dois rios que banham o Luacano e o Luau. O regedor Tchiesso defendeu o nome por simbolizar dois rios importantes para a economia da região, através da pesca. No fim, a província ficou a chamar-se Moxico Leste.

Peixe, transporte e diamantes

Para as comunidades ribeirinhas, o Cassai sempre foi fonte de peixe e caminho de ligação. No seu leito e no dos afluentes há depósitos de diamantes aluviais, e o vale do Cuango, um dos seus afluentes, é conhecido como o coração diamantífero do nordeste de Angola.

No lado congolês, o explorador Henry Morton Stanley chegou à foz do Cassai a 9 de Março de 1877 e chamou-lhe Nkutu, "um rio poderoso e profundo".

Texto: #talentlundaleste. Fontes: Wikipédia, «Rio Cassai», «Kasai River» e «Moxico Leste»; Encyclopaedia Britannica, «Kasai River»; ANGOP (2024, 2025); Ministério da Administração do Território (mat.gov.ao). Fotografia: Sagar Bhatt, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

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Escultura Samanhonga, o Pensador cokwe, em madeira escura
Escultura «Samanhonga» (Pensador) exposta no Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia. Foto: Kellisson Silva, CC0, via Wikimedia Commons.

Cultura Matéria 36

O Pensador: do cesto do adivinho ao símbolo de Angola

Está nas notas de kwanza, nas lojas de artesanato e até na sede das Nações Unidas. Mas o Pensador nasceu aqui, no Leste: é uma figura da arte cokwe, ligada à adivinhação e à sabedoria dos mais velhos.

Uma peça de 16 centímetros

Segundo dados do Museu do Dundo citados pela ANGOP, a peça original é uma escultura em madeira com 16 centímetros, vinda da localidade de Cingufu, a cerca de 30 quilómetros do Chitato, na Lunda Norte. José Redinha, o primeiro director do museu, registou-a em 1936, encontrada dentro de um cesto de adivinhação, o ngombo.

Nos anos seguintes apareceram figuras parecidas noutros objectos cokwe, como pentes e apitos.

Kuku, kaka, samanyonga

Na tradição cokwe, a figura chamava-se kuku ou kaka, palavras ligadas ao ancião ou à anciã. Representava o espírito de um mais velho com sabedoria mística, intermediário entre os vivos e os antepassados. Por isso tanto pode ser um homem como uma mulher.

O nome «Pensador» (ou Samanyonga) surgiu mais tarde, no Museu do Dundo. A ANGOP lembra que, apesar do nome, a peça não tem a ver com «O Pensador» do francês Rodin: é a imagem do mais velho que medita sobre a vida.

Do Dundo para o país inteiro

A partir do fim dos anos 1940, escultores do Dundo começaram a talhar o Pensador em série, a partir do modelo do museu. Em 1984, no primeiro festival nacional de cultura, em Luanda, a figura foi proclamada símbolo da cultura nacional.

Hoje aparece na marca de água das notas de kwanza. A 21 de Setembro de 2000, Angola ofereceu às Nações Unidas um Pensador em bronze, que está exposto na sede da ONU, em Nova Iorque.

Texto: #talentlundaleste. Fontes: ANGOP, «Samanyonga "kaka" diferente do "Le Penseur" francês» (2024); Museu da Presidência (Portugal), MPR+ n.º 27; United Nations Gifts, «O Pensador»; Arquipélagos, «Pensador tchokwe»; Wikipédia, «O Pensador (cultura angolana)». Fotografia: Kellisson Silva, CC0, via Wikimedia Commons.

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Reservatório de água da cidade de Saurimo
Reservatório de água em Saurimo. A cidade depende do rio Chicapa para a luz e para a água. Foto: Fmanuel090, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Economia Matéria 37

A barragem do Chicapa: a luz de Saurimo

A 24 quilómetros de Saurimo, o rio Chicapa faz girar quatro turbinas. É daqui que vem boa parte da electricidade da capital da Lunda Sul e da mina de diamantes de Catoca.

Em números

  • Potência: 16 megawatts, em quatro turbinas de 4 MW cada.
  • Produção média: cerca de 116 a 120 milhões de kWh por ano.
  • Albufeira: cerca de 1,64 km², com uma queda de 34 metros.
  • Distribuição prevista: 4 MW para Saurimo e 12 MW para Catoca, numa concessão de 40 anos.

Como nasceu

As obras começaram em 2004, com a russa Alrosa como investidora, através da empresa Alrosa Vneshtroy. Em Junho desse ano começou o desvio do rio. A primeira turbina arrancou no início de 2007, e a 22 de Agosto de 2008 a barragem foi inaugurada com a presença do Presidente José Eduardo dos Santos.

Além da energia, o projecto foi pensado para regularizar o caudal do rio, apoiar a rega e a piscicultura e garantir água para consumo.

Novos donos e o Chicapa II

Em 2025, com a saída da Alrosa de Catoca e do Luele, o património da Hidrochicapa passou para a Sociedade Mineira do Luele. Em Março desse ano, alunos do bairro Ngando visitaram a barragem para ver como a corrente do rio vira electricidade.

Há anos que se fala de uma segunda barragem, o Chicapa II, para acompanhar o crescimento de Saurimo. Em 2020, o governo apresentou um projecto de mais 15 MW, mas os números anunciados mudaram várias vezes ao longo dos anos.

Texto: #talentlundaleste. Fontes: ANGOP (2007, 2020); Alrosa/Oreanda-News (2008); International Water Power (2007); Renewable Energy World (2007, 2008); Correio da Kianda (2020); RTP/Ver Angola (2025); Sociedade Mineira do Luele (2025). Fotografia: Fmanuel090, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

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Matéria 1 · História

A rainha, o caçador e o nascimento de um império.

Ilustração da Rainha Lueji e do caçador Chibinda Ilunga
Lueji A'Nkonde e Chibinda Ilunga

História Matéria 1

O Reino Lunda: a lenda de Lueji e Chibinda Ilunga

Uma pulseira sagrada, um casamento por volta de 1600 e um título que dura até hoje: Mwata Yamvo.

Segundo a tradição oral, os Lunda foram colocados por Nzambi/Katenge entre os rios Calânhi e Cajidíxi, vivendo em aldeias chefiadas pelos tubungo.

O chefe Iala Mwaku, desapontado com os filhos Kinguri e Yala, entregou o poder à filha Lueji A'Nkonde e o lukano, a pulseira sagrada do poder. Lueji casou com Chibinda Ilunga, caçador luba, irmão de Kalala Ilunga, por volta de 1600.

A aristocracia revoltou-se: Kinguri partiu para oeste e deu origem aos Imbangala (Bângalas) de Kasanje, e Kinyama e outros migraram para sul e leste, dando origem a povos como os Luvale e Cokwe. Os descendentes de Chibinda tornaram-se Mwata Yamvo (Muatiânvua), título do soberano lunda até hoje.

A capital real era a Musumba, cercada de fosso e muralhas de terra, com ruas e pátios. No século XVII o reino controlava cerca de 150.000 km² e chegou a cerca de 300.000 km² no século XIX, como confederação de chefaturas que pagavam tributo.

Comerciava com Kasanje a oeste e chegava ao Zambeze e ao Índico a leste: Mwata Kazembe fundou a Lunda oriental no Luapula.

Em 1887 caiu a Musumba; os Cokwe, armados e grandes comerciantes de cera, marfim e borracha, expandiram-se no século XIX. A lenda foi recolhida por Henrique de Carvalho na expedição de 1884–1888.

Hoje a Musumba fica na província de Lualaba (RDC) e o Mwata Yamvo continua a ser autoridade tradicional.

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Matérias 2 a 4 · Cultura

Máscaras, ritos e desenhos na areia.

Máscara cokwe Mwana Pwo
Máscara Mwana Pwo

Cultura Matéria 2

Cokwe: o povo artista

Dos maiores escultores de África, de máscaras a cadeiras de chefe.

Os Cokwe (Tchokwe) são conhecidos como dos maiores escultores de África.

A máscara Mwana Pwo representa a mulher jovem e o ideal de beleza e fertilidade, com escarificações finas; é dançada por homens nas festas. Chihongo representa o poder e a riqueza do chefe.

As estátuas de Chibinda Ilunga, o caçador civilizador, são obras-primas guardadas em museus do mundo. Também se esculpem cadeiras de chefe (citwamo), bastões e pentes.

O Pensador (Kuku Ngambanda) tornou-se símbolo da cultura angolana.

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Cultura Matéria 3

Mukanda e Akixi: a escola da vida

No acampamento do mato, os rapazes aprendem a ser adultos, protegidos pelos mascarados.

O mukanda é o rito de iniciação masculina, em acampamento no mato, onde os rapazes aprendem regras da comunidade, ofícios, canções e respeito aos mais velhos; os akixi (mascarados) acompanham e protegem o rito.

Para as raparigas existe o rito de passagem (ukule/wali conforme o povo), com ensinamentos sobre a vida adulta.

A UNESCO inscreveu em 2005 o Makishi (Zâmbia) como património imaterial, tradição partilhada pelos povos Luvale, Cokwe, Lunda e Mbunda.

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Desenho sona cokwe traçado na areia
Um lusona traçado em volta de uma grelha de pontos

Cultura Matéria 4

Sona: a geometria na areia

Uma linha contínua que conta provérbios, fábulas e ensinamentos.

Os sona (singular lusona) são desenhos traçados na areia pelos akwa kuta sona, contadores de histórias cokwe.

Em volta de uma grelha de pontos, desenha-se uma linha contínua que conta provérbios, fábulas e ensinamentos.

Matemáticos como Paulus Gerdes estudaram a sua simetria e geometria. São uma das formas de escrita e memória mais originais de África.

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Matérias 5 e 6 · Diamantes e memória

Um Estado dentro do Estado, e o museu que nasceu dele.

Ilustração de estilo antigo da mineração de diamantes na Lunda
Mineração de diamantes na Lunda

História Matéria 5

A época da Diamang (1917–1988)

Setenta anos de concessão sobre quase toda a Lunda, entre hospitais próprios e trabalho forçado.

Em novembro de 1912 foram encontrados os primeiros diamantes no rio Musalala, afluente do Chiumbe, perto do actual Dundo, por prospectores ligados à Forminière e à PEMA – Pesquisas Mineiras de Angola (fundada em 1912).

A 16 de outubro de 1917 nasceu a Companhia de Diamantes de Angola (DIAMANG), com capitais portugueses, belgas, franceses, americanos, britânicos e sul-africanos. A concessão de cerca de 52.000 km² cobria quase toda a Lunda; a empresa construiu o Dundo como vila-sede e chegou a ter mais de 30 mil trabalhadores.

Era chamada "um Estado dentro do Estado": tinha polícia, hospitais e serviços próprios, mas também trabalho forçado e segregação entre brancos, assimilados e indígenas.

Em 1937 começou a mecanização; em 1952 foi descoberto o primeiro kimberlito de Angola, Camafuca-Camazambo.

Após a independência foi nacionalizada (decretos 61/77 e 255/79); a 15 de janeiro de 1981 nasceu a Endiama, e a Diamang foi formalmente dissolvida a 17 de fevereiro de 1988.

Hoje Angola é um dos maiores produtores mundiais de diamantes; em 2024 registou produção recorde de 13,9 milhões de quilates.

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Interior do Museu do Dundo
Foto: Euronews

Cultura Matéria 6

Museu do Dundo: guardião da memória

Um dos mais antigos museus da África Central faz 90 anos em 2026.

Criado pela Diamang em 1936, com coleções reunidas por José Redinha, é um dos mais antigos museus da África Central.

Guarda máscaras, esculturas, instrumentos musicais e objectos do quotidiano dos povos lunda-cokwe.

Sofreu perdas durante a guerra e tem sido recuperado com apoio do Governo e da Endiama.

Origem dos nomes

De onde vêm os nomes do Leste.

Províncias, capitais e povos, com a fonte de cada versão.

Lunda

Nome do antigo Reino/Império Lunda, cujo centro ficava na Mussumba (sul do actual Congo-RDC).

  • 13 de Julho de 1895 · Portugal cria o Distrito da Lunda, com sede em Saurimo.
  • 1978 · Três anos após a independência, a Lunda é dividida em Lunda Norte e Lunda Sul.
  • A capital da Lunda Norte foi instalada provisoriamente no Lucapa; hoje é o Dundo.

Fonte: Governo de Angola, ANGOP.

Moxico

Segundo o Governo Provincial do Moxico e a ANGOP, o nome vem de "Muxiko", um cesto tradicional usado para transportar peixe, víveres e armas de resistência anticolonial. Um soba adoptou esse nome, passado aos sucessores.

O tenente-coronel Trigo Teixeira (expedição de 1895) referia nos relatórios o soba Moxico como homem hospitaleiro, e o nome passou a designar a região, antes conhecida como "Região Luvale".

Luena Capital do Moxico

  • Antes · Moxico-Novo.
  • 25 de Fevereiro de 1922 · Passa a chamar-se Vila Luso, em homenagem à localidade de Luso, em Portugal, na visita de Norton de Matos às obras do Caminho de Ferro de Benguela.
  • 1956 · Elevada a cidade.
  • Após a independência (1975/1976) · Recebe o nome do rio Luena, que a banha a sul.

Saurimo Capital da Lunda Sul

Do termo cokwe "Sa Urimbo" (ou "Sa-ulimbo"), nome de um chefe nativo; "urimbo" designa uma cola pegajosa usada para apanhar pequenas aves.

  • 1923 · Torna-se Vila Henrique de Carvalho.
  • 28 de Maio de 1956 · Elevada a cidade.
  • Após a independência · Volta a chamar-se Saurimo.

Cokwe Versão da tradição oral

Segundo relatos recolhidos sobre a tradição, os Lunda chamavam "aioco" (interpretado como "expatriado") aos grupos que se espalharam até ao rio Cassai, palavra que teria evoluído para "quioco"/Cokwe.

Dundo Capital da Lunda Norte

Segundo um estudo académico sobre a Lunda (Diamond politics in the Angolan periphery, 2014), "Dundo" significa "borracha" em cokwe.

  • 1912 · Fundado depois da descoberta de diamantes no rio Mussalala.
  • 1997 · Passa provisoriamente a capital da Lunda Norte, no lugar do Lucapa; definitivo em 2000.
  • 7 de Janeiro de 2015 · O Decreto Presidencial n.º 21/15 cria a Cidade do Dundo.

Lucapa Versão da tradição oral

Segundo a tradição oral, o nome junta o início do rio Luachimo e o fim do rio Chicapa. O Lucapa foi a primeira capital da Lunda Norte, a partir de 1978.

Xá-Muteba Lunda Norte

Muata Xá Muteba era um chefe lunda, "Caungula do Muatiânvua e grande quilolo da Lunda". A 31 de Outubro de 1885 assinou um tratado de protectorado com Portugal, registado por Henrique de Carvalho na obra "A Lunda". O município pertencia a Malanje e passou para a Lunda Norte em 1978.

Moxico Leste

Província criada pela Lei n.º 14/24 (nova divisão político-administrativa, em vigor a partir de 2025), com capital no Cazombo.

O nome previsto era "Cassai Zambeze", mas foi alterado depois de uma consulta a Nhacatolo Ngambo, soberana dos povos luvale e lunda. Antes da lei, o Cazombo era a sede do município do Alto Zambeze.

CazomboLuacanoCameiaLuauNana CandundoMacondoCaiandaLóvua do ZambezeLago Dilolo

Municípios da Lunda Sul

Lista oficial do Governo Provincial.

Alto ChicapaCacoloCassengoCassai-SulChiluageCazageDalaLuma CassaiMucondaMuanguejiMuriegeSaurimoSomboXassengue

Nota

A origem dos nomes dos restantes municípios está a ser pesquisada e será acrescentada só quando houver fonte confirmada. Tem uma história de família sobre o nome da sua terra? Envie pelo Cadastro.

Fontes: Governo de Angola (governo.gov.ao), ANGOP, Governo Provincial do Moxico, Governo Provincial da Lunda Sul, Wikipédia (Saurimo, Luena, Lucapa, Dundo, Moxico Leste, Cazombo), Decreto Presidencial n.º 21/15, Henrique de Carvalho (A Lunda, 1890), Mosaiko (relatório Cafunfo, 2023), Diamond politics in the Angolan periphery (2014).

Ver também: Nomes Luvale e os seus significados

Acesso livre · diamang.com

Arquivo Diamang

O diamang.com é um espaço virtual dedicado à Diamang e à Lunda, com milhares de fotografias e vídeos partilhados por quem viveu e trabalhou na região. Este guia organiza as 13 colecções do arquivo e leva-o directamente a cada uma. As fotografias pertencem aos seus autores e ao arquivo Diamang e estão sujeitas à licença Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 2.5 Portugal; por isso são vistas no site original.

Fonte: diamang.com — licença CC BY-NC-ND 2.5 PT (http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/2.5/pt/).

Acesso livre · Bate-papo

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